Aproximadamente duas horas depois a ambulância ainda não tinha chegado e Deusirene morreu na rede onde estava deitada. “Às vezes se eles tivessem chegado a tempo minha irmã não tinha ido a óbito”, disse a lavradora.
Só que dor da perda não foi à única angústia vivida naquele dia e o sofrimento estava apenas começando. Ao ligar para funerária, a irmã descobriu que precisaria do atestado de óbito para que o corpo pudesse ser removido.
Só que a unidade de saúde do povoado não tem atendimento no fim de semana e os moradores dizem que a ambulância do assentamento está quebrada desde o ano passado.
Ainda com o corpo deitado na rede, dona Raimunda foi orientada por policiais a procurar uma delegacia. Ela seguiu para Barrolândia, cidade mais próxima, mas deu de cara com o portão fechado. “Lá não tem delegacia aberta no fim de semana nem em feriado.”
Até ao Instituto Médico Legal eles recorreram, mas sem resultado porque a morte não tinha indícios de crime. A lavradora retornou para casa e, desesperada ao ver a irmã morta sem atendimento, decidiu ela mesma levar o corpo até o hospital de Miracema do Tocantins, sede do povoado.
“Eu peguei, com rede e tudo, pedi dois homens que tinha aqui. Eles pegaram [o corpo], eu abri a lona e eles colocaram com rede e tudo. Estava com as perninhas dobradas, bem encolhida porque os nervos tinham endurecido. A gente enrolou em duas lonas”, disse.
No hospital a lavradora finalmente foi atendida, conseguiu a documentação e retornou ao assentamento com o corpo da irmã enrolado na lona e na carroceria do carro.
Só às 3h da madrugada de domingo (17) é que o corpo foi recolhido pela funerária. Ao longo de todo esse tempo, o Samu nunca chegou. “A não ser que eles estão na estrada. Erraram a estrada e nunca apareceram de sábado pra cá [sic] porque não me deram satisfação alguma”, disse.
Como o corpo ficou sem tratamento adequado por quase 17 horas, o velório de verdade só pode durar alguns minutos. “Para mim foi uma humilhação muito grande. No momento que eu mais precisei, podia estar ao menos velando a minha irmã, eu estava velando ela enrolada em uma lona, dentro do carro enrolada em uma lona”, lamentou a irmã.
O que dizem os órgãos responsáveis
A Secretaria Municipal de Saúde de Palmas confirmou que o Samu recebeu o chamado por volta de 13h30, mas que o socorro não foi prestado porque meia hora depois eles foram informados de que a Deusirene Ferreira de Aquino, 54, tinha morrido.
A Semus disse ainda que a constatação de mortes deve ser feita por um profissional médico e que a equipe do Samu de Miracema é composta apenas por condutor socorrista e técnico de enfermagem.
A Secretaria de Saúde de Miracema, responsável pela ambulância que atende a região e está há oito meses estragada, afirmou que “o veículo ainda está em manutenção aguardando por uma peça há 15 dias”.
Sobre a morte da Deusirene, a pasta disse que ficou sabendo do óbito por volta das 6h da tarde e que teria orientado a família quanto aos procedimentos que deveriam ser adotados para que o corpo fosse recolhido. A pasta nega que tenham recebido chamado antes da morte.
O Corpo de Bombeiros informou que não recebeu chamado para atender o caso.
A Polícia Civil disse que as delegacias só funcionam em horário comercial e após esse horário quem precisa de atendimento tem que procurar uma das centrais de flagrantes.